O ódio está em nós ou no outro? – Deivid Arent

Nunca percebemos o ódio em nós, mas temos uma profunda habilidade de percebê-lo no outro. Temos resistência em reconhecer que o ódio é onipresente e universal, ninguém nega que ele exista desde que não esteja no eu, na minha casa ou cidade. O ódio é sempre visto de forma externa, parece que vivemos em um paraíso, livres de qualquer resquício. Temos apenas uma certeza: o único inocente sou eu que escrevo e você que me lê. Todos os outros são culpados. Convivemos diariamente com a omissão da responsabilidade no ódio e na violência do nosso cotidiano. Ninguém se inclui no problema, pois o ódio é um lugar “quentinho”. É lá que nos escondemos.

Em 1936 Sérgio Buarque de Holanda usou a expressão “homem cordial” para definir a população brasileira, e até hoje o mesmo é crucificado pela frase. No entanto, ele se referia ao cordial, não como se os brasileiros fossem dóceis, mas sim, como se nós agíssemos pelo coração, de forma impulsiva.

“Nós” somos éticos, “eles” são corruptos. “Nós” utilizamos a faixa de pedestres, “eles” passam longe da mesma. “Nós” queremos o melhor para a empresa onde trabalhamos, “eles” querem apenas receber o salário no início do mês. “Nós” trabalhamos por um Brasil disciplinado e empreendedor, “eles” querem só os benefícios do governo numa vida fácil. “Nós” respeitamos todas as sinalizações de trânsito, “eles” desrespeitam o sinal vermelho. “Nós” sustentamos o Brasil, “eles” apenas se aproveitam. Qual o grande problema nacional? “Eles” não entendem que “nós” estejamos corretos, e que somos livres de defeitos.

O trânsito brasileiro mata em torno de 40 mil pessoas por ano, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária. A guerra no Vietnã, ao longo de 12 anos, matou 58 mil norte-americanos (e mais de um milhão de vietnamitas). Para os motociclistas os problemas no trânsito são os ônibus, carros e pedestres. Caso eu seja ciclista, passamos a ter motoristas descuidados que não respeitam os mais fracos, e falta cidadania. Caso fosse taxista? O problema são os carros de passeio. Novamente, existem apenas duas pessoas que sabem dirigir: obviamente, eu que escrevo e você que me lê. Aliás, apenas nós dois somos perfeitos, o restante da humanidade é intolerante e não consegue reconhecer os próprios erros. Inteligentes e equilibrados são aqueles que concordam com minha opinião, os que pensam diferente são despreparados e não deveriam existir.

Somos violentos a todo momento. Violentos ao torcer pelo nosso time, violentos nas redes sociais, no trânsito, ao irmos às urnas, ao andarmos nas ruas e violentos até mesmo no banco da igreja. Não estamos preparados para conviver em sociedade, nossa intolerância pelo diferente é cruel, e a todo momento ela se manifesta. “O ódio é o veneno que você toma desejando que faça mal a outra pessoa”, afirmou o filósofo Mario Sergio Cortella.
Proliferar o ódio parece estar mais na moda do que nunca. Associamos o ódio como um sinal de força, como algo positivo e voltado ao masculino. Já o ato de voltar atrás, pedir perdão, ouvir calado e trazer harmonia é encarado como algo negativo e feminino. Não é por acaso que a próxima eleição trouxe para a disputa figuras voltadas à polarização do ódio, com as campanhas todos contra todos, “nós” contra “eles”. Já aqueles candidatos que não entram na disputa para propor o ódio e preferem debater o Brasil, são rotulados como omissos e sumidos. A política só me é conveniente quando o meu candidato está no poder. O mesmo acontece com os institutos que promovem pesquisas de intenções de votos, rotulados como corruptos quando os números não favorecem o meu candidato e honestos quando apontam algo a favor.

O professor e historiador Leandro Karnal, analisa no livro “Todos Contra Todos” que o ódio é um meio por onde transferimos as nossas responsabilidades. “Além de garantir segurança, apresenta um segundo elemento: transfere a você tudo o que é de ruim. Você só pode ser petista por ser um ladrão. Você só pode ser do PSDB porque é uma pessoa insensível e fascista”. Karnal afirma que as pessoas fazem uso do ódio para proteção pessoal. “Não há outra opção, tudo o que é ruim está no outro. Isso cria uma zona de conforto em quem odeia. Como não sou ladrão nem fascista, sou uma pessoa correta. Você só pode ser pobre por ser um vagabundo, e eu só posso ser rico por ser esforçado.” Karnal dá o tom do assunto e encontra uma possível resposta para a pergunta feita no título. (O ódio está em nós ou no outro?) “O inferno está no outro, talvez porque o paraíso também esteja lá.” — Somos dominados pelo ódio. Isso às vezes me dá um ódio…

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