Ética no esporte: Bola redonda, escola quadrada

Às vésperas da Copa de 2014, Cristovam Buarque, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e senador, publicou um artigo onde retratou a situação de esquecimento da educação brasileira, e aproveitou para fazer uma comparação com o futebol praticado no país. “O Brasil tem o maior número de grandes craques de futebol porque é um país com muitos habitantes, onde todos praticam o futebol quando crianças e a bola é redonda para todos. Mas não temos até hoje um único Prêmio Nobel, porque milhões são impedidos de desenvolver o seu talento intelectual por falta de escola de qualidade. A bola é redonda para todos, mas a escola é quadrada para a maior parte dos brasileiros”.

O esporte é o principal caminho para tirar os jovens de situações de risco, mas é preciso conciliar esporte e educação. Temos um grande problema estrutural, que passa inicialmente pela família e depois se estende aos profissionais da educação. Desde o início deste ano estou atuando como árbitro assistente de futebol, e tenho percebido que a ideia de levar vantagem a qualquer custo, o “jeitinho brasileiro” e a malandragem estão impregnados em todas as categorias do futebol, do “dente de leite” aos jogadores já “sem dentes”. Aqueles que têm a responsabilidade de ensinar as crianças, estão contaminados pelo espírito da corrupção disfarçada. Acredito que a corrupção pública é mais grave que a corrupção privada, mas aqueles que roubaram a Petrobras por exemplo, certamente já utilizaram do mesmo artifício no campo de futebol. Tenho a impressão que as pessoas acreditam que quando estão dentro de campo ou na arquibancada, não existem regras, bom senso, respeito e ética.

Hoje o principal jogador da seleção brasileira de futebol é o retrato da péssima educação brasileira. Neymar indiscutivelmente é um grande jogador, não deve ser contestado nesse sentido. Por outro lado, não faz questão de esconder a falta de ética e educação com que se coloca dentro e fora de campo. Definitivamente, não consigo enxergar Neymar como um exemplo a ser seguido, eu não quero que meu filho (a) tenha como ídolo alguém que utiliza da malandragem para levar vantagem, e falta com respeito ao se negar dar a mão para um colega de profissão que estava caído no chão, ou, ao retirar a bola das mãos do companheiro de clube impedindo que o mesmo fizesse a cobrança do pênalti.

Mais triste do que ter Neymar como ídolo dos brasileiros, é perceber que as únicas críticas feitas ao mesmo, é pela escolha da cor da tinta de cabelo, como se isso tivesse interferido no rendimento do jogador. Tenho a impressão que não estamos preocupados com a mensagem que o ídolo deve passar, mas sim, com o resultado dentro de campo. No passado pagamos um preço muito alto por termos criado um falso ídolo, Pelé jamais foi um “rei” fora de campo, não tomou consciência do poder que sua postura fora de campo poderia proporcionar uma grande mudança na luta contra o racismo, e até hoje somos um país extremamente preconceituoso. Pelé nunca levantou o debate pelo fim do racismo, se utilizou da falsa proteção de “rei do futebol” para fingir que nunca foi vítima de preconceito. Pelé sempre manteve relacionamentos públicos com mulheres brancas, e chegou a rejeitar uma filha, que mais tarde morreu vítima de câncer, e o pai não foi ao velório. Pelé e Neymar nos colocam em posição de paralisação, o tempo passou, mas continuamos sem saber escolher nossos ídolos.

Mais importante que o rótulo de país do futebol, é sermos o país de todos os esportes. Não consigo compreender a falsa paixão de muitas pessoas, que dizem torcer para a seleção brasileira de futebol, mesmo sem gostar do esporte. Seria esse um movimento de encontro a “modinha”? Se “todos” estão torcendo, eu vou torcer também?

Não conseguimos sequer lembrar os nomes dos últimos campeões olímpicos. Sendo esses os verdadeiros campeões, ganham pouco e não recebem o reconhecimento dos brasileiros. Devemos pensar o futuro, e o futuro é valorizar todos os esportes, é vestir a camisa amarela para ver o basquete, vôlei, tênis, atletismo, handebol e muito outros.

Este artigo está em

Join the Conversation