O setor das matérias-primas e da indústria extrativa em Portugal atravessa um momento de dinamismo significativo, marcado por investimentos de grande escala na refinação de lítio e por avanços burocráticos em projetos de exploração mineira a sul do país. Em duas frentes distintas, mas complementares na estratégia de reindustrialização nacional, a Lifthium Energy garantiu um financiamento crucial para a sua refinaria, enquanto a canadiana Cerrado Gold avança com o projeto da Lagoa Salgada através de mecanismos administrativos.

Luz verde e fundos europeus para a refinaria de Estarreja

Num passo decisivo para a fileira das baterias elétricas, a Lifthium Energy assegurou um apoio governamental de 180 milhões de euros (aproximadamente 210 milhões de dólares) para a construção de uma refinaria de lítio sustentável. Este incentivo, concedido a fundo perdido ao abrigo do Quadro Temporário de Crise e Transição da União Europeia, visa acelerar a transição verde e industrial, permitindo a Portugal subir na cadeia de valor.

O país, que detém reservas estimadas em 60 mil toneladas métricas e lidera a produção europeia deste metal — tradicionalmente destinado à indústria cerâmica —, procura agora afirmar-se na produção de lítio de grau de bateria, um material de maior pureza e valor acrescentado.

O projeto da Lifthium, detida em 85% pelo grupo José de Mello e em 15% pela Bondalti (o maior produtor químico nacional), prevê um investimento total de 514 milhões de euros. A unidade será instalada em Estarreja, tirando partido da infraestrutura industrial onde a Bondalti já opera, a cerca de 50 quilómetros do Porto. Com uma capacidade de refinação anual projetada para 50 mil toneladas de hidróxido de lítio — suficiente para abastecer baterias para dois milhões de veículos elétricos —, a empresa espera criar 134 novos postos de trabalho.

Prudência num mercado volátil

Apesar do impulso financeiro, a gestão do projeto mantém uma postura cautelosa. Duarte Braga, CEO da Lifthium Energy, sublinhou que a empresa avança “com rigor e prudência”, alertando para o facto de o mercado do lítio e o ambiente industrial europeu se terem tornado significativamente mais desafiantes nos últimos dois anos. “Este incentivo é muito importante para o projeto, mas o foco mantém-se na criação das condições necessárias para passar à fase seguinte”, afirmou o gestor.

Os próximos passos da empresa passarão pela consolidação de parcerias estratégicas e pela estabilização das condições de financiamento e de mercado. Paralelamente, o setor aguarda ainda o lançamento do concurso para licenças de prospeção de lítio, há muito adiado, visto como essencial para reduzir a dependência europeia de importações.

Avanço administrativo no projeto Lagoa Salgada

Enquanto a indústria transformadora ganha tração no norte, no Alentejo, a Cerrado Gold anunciou desenvolvimentos relevantes no seu projeto polimetálico. A empresa canadiana comunicou o que considera ser a “aprovação tácita” do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) para o projeto Lagoa Salgada, situado na Faixa Piritosa Ibérica.

De acordo com a empresa, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) não emitiu a Declaração de Impacte Ambiental (DIA) dentro do prazo legal estipulado, após a submissão do projeto reformulado a 8 de novembro de 2025. Ao abrigo do regime jurídico de Avaliação de Impacte Ambiental (Decreto-Lei n.º 151-B/2013), o incumprimento do prazo resulta, na interpretação da Cerrado Gold e dos seus consultores jurídicos, num deferimento tácito.

Passagem à fase de execução

Com este entendimento jurídico, a Cerrado Gold considera que o projeto possui viabilidade ambiental, o que permite avançar para a fase de Relatório de Conformidade Ambiental do Projeto de Execução (RECAPE). Mark Brennan, CEO da empresa, destacou que esta aprovação tácita reflete o funcionamento de um quadro legal desenhado para garantir certeza processual. “A DIA é um marco que permite ao projeto progredir para a fase de execução”, referiu, assegurando que o projeto reformulado mantém o respeito integral pelas normas ambientais.

A empresa pretende agora solicitar a certificação formal desta aprovação tácita para prosseguir com o licenciamento. No entanto, o processo não está isento de incertezas, uma vez que a posição da APA permanece uma incógnita, não havendo garantias absolutas de que o regulador não venha a emitir um parecer desfavorável ou apresentar objeções, não obstante o decurso do prazo.

O potencial mineiro da Faixa Piritosa

O projeto Lagoa Salgada, localizado a cerca de 80 quilómetros de Lisboa, beneficia de infraestruturas de excelência e representa uma aposta estratégica da Cerrado Gold em Portugal, onde detém uma participação de 80% através da subsidiária Redcorp. Trata-se de um depósito de alta densidade polimetálica, com mineralização típica de zinco, cobre, chumbo, estanho, prata e ouro.

Além do potencial imediato de exploração e geração de fluxo de caixa, a concessão abrange uma vasta área de 7.209 hectares com forte potencial para novas descobertas. A estratégia da empresa, que também opera minas de ouro na Argentina e desenvolve projetos de ferro de alta pureza no Quebeque, Canadá, passa agora por consolidar a sua posição na Europa, num momento em que a segurança no abastecimento de minerais críticos é prioritária para a economia do continente.