De uma brincadeira de criança para uma história no futebol – Coluna de Lissandro Velho

Antigamente o futebol era praticado somente aos domingos e um dos meios utilizados para reunir famílias. Poucos eram os atletas amadores que tinham como sonho se tornar jogador profissional de futebol. Isto estamos falando em meados dos anos 60, porém no meio daqueles garotos da cidade de Armazém, estava José Carlos de Sousa, nascido na cidade vizinha, São Martinho.

Primogênito de uma família de nove filhos, criados com muito amor, porém com muitas dificuldades, Zé Carlos tinha o sonho de ser jogador de futebol e batalhou para isso. Graças ao seu talento e dinamismo teve as oportunidades a qual se destacou e chegou ao profissionalismo. Passou por muitas dificuldades e mesmo assim nunca desistiu.

Um pouco mais da história de José Carlos de Souza.

Nascido no dia 16 de dezembro de 1951, na localidade de Praia Redonda, distrito de Imaruí – SC. Seu pai, João Manoel de Souza (in memorian) e Ana Barcelos de Souza, falecida em 08 de janeiro de 2018, aos 91 anos de idade. Ambos agricultores e que batalharam muito para criar seus nove filhos da melhor forma possível. O esporte apareceu na vida de Zé Carlos e dos irmãos porque a bola era uma das poucas diversões que existiam à época. Dos nove irmãos, oito eram homens e uma, mulher.

Hercílio Luz 1975. Zé Carlos é o último agachado, da esquerda para a direita / Arquivo pessoal

O começo

Após jogar nos gramados de Armazém e demonstrar ter talento, Zé Carlos foi convidado pelo saudoso Paulinho da Rosa, para fazer um teste na equipe do Água Verde da cidade de Curitiba. Após o primeiro teste, surgiu uma oportunidade maior no Atlético Paranaense, para também fazer um teste. Aprovado, teria ali o começo de uma história profissional no futebol, porém ao retornar para Santa Catarina para buscar seus documentos, sua protetora mãe, opiniou para Zé Carlos permanecer com a família. Como filho mais velho se viu na responsabilidade em ficar e ajudar os familiares.

Após um ano da primeira oportunidade, novamente, uma porta se abriu para Zé Carlos. A oportunidade veio em 1968 ao ser convidado pelo ilustre Claudio Crippa (in memorian), para fazer um teste no todo poderoso Metropol, de Criciúma. Desta vez a família o apoiou, principalmente pelo fato de não ser muito distante de Armazém. Foram três meses de aprendizado e novidades. mas o verdadeiro começo no profissional foi com um novo convite, desta vez pelo treinador Jamelão (in memorian), que tinha influência na área esportiva do clube do Comerciário, arquirrival do Metropol. A oportunidade veio ainda no ano 1968 e finalmente Zé Carlos estava em um clube profissional de futebol, recebendo como jogador de futebol.

O Drama

A vida de Zé Carlos estava encaminhada para uma carreira de sucesso, já que era visto como uma grande promessa, porém, apenas dois jogos pelo Comerciário Esporte Clube e em uma jogada mais rispida, Zé Carlos foi atingido na altura do joelho e a calmaria se tornou uma tempestade. Foi diagnosticado com rompimento nos ligamentos e meniscos. A luta se tornou árdua e Zé Carlos, a define da seguinte maneira, “esta lesão foi em um momento muito bom de minha carreira. Tive que passar por duas cirurgias e fiquei um ano parado. Sou grato a Comerciário que bancou todos os gastos para minha recuperação”. Este episódio mudou a vida de Zé Carlos como ele mesmo afirma, “após me recuperar e conseguir voltar a jogar, minha vida nunca mais foi a mesma, já que a dor foi minha companheira durante o período que ainda permaneci jogando e ela é minha companheira até os dias de hoje”.

Zé Carlos, com o filho Dudu, nos tempos do Grêmio Gravatalense / Arquivo pessoal.

O recomeço

No ano de 1971, Zé Carlos foi servir o exército na cidade de Tubarão e lá permaneceu dois anos e quinze dias. Esta experiência mexeu com sua vida, como ele mesmo descreve, “quando entrei para o exército já me identifiquei com o serviço. Gostei tanto que tinha a intenção de seguir carreira. Só que enquanto eu estive servindo recebi uma proposta do Hercílio Luz Futebol Clube. Dei baixa no serviço militar e fui direto para o time principal [do Hercílio Luz]”.

A equipe estava se preparando para o Campeonato Catarinense de Futebol de 1973 e Zé Carlos passou integrar a mesma.

Atuando como lateral esquerdo, ele enfrentou o primeiro desafio após sua contusão [no joelho]. A primeira partida foi contra o Figueirense e a equipe do Hercílio Luz foi derrotada no estádio Aníbal Costa, pelo placar de 2×0. Apesar de não ter feito a atuação que desejava, Zé Carlos está feliz por retornar ao futebol.

O auge

Após dois anos de experiências e muitos jogos pelo Hercílio Luz, o auge foi no ano de 1975, como Zé Carlos relembra, “neste ano o Exército assumiu a equipe do Hercílio, devido a grande enchente de 1974. Passamos a jogar pelo Catarinense, no campo do Nacional de Capivari de Baixo. Fui considerado um dos atletas mais bem preparados fisicamente em nosso elenco, apesar das dores”. O clube fez uma campanha razoável, porém em muitas partidas Zé Carlos foi o destaque, como ele mesmo cita, “tive partidas em que me destaquei. Tenho uma boa lembrança da partida contra o Avaí, a qual empatamos em 1×1 e recebi muitos elogios da imprensa pela minha atuação”.

A época dos títulos no Amador

Depois de ter atuado pelo Hercílio Luz, Zé Carlos retornou ao futebol amador ainda na década de 70. O retorno ao amador, demonstrou que a experiência no futebol profissional, rendeu frutos. Os título, gols e grandes atuações estiveram ao lado dele. “Tive o prazer de conquistar muitos títulos no amador. Fui campeão pelo Pinheirinho (Tubarão), Grêmio Gravatalense (Gravatal), Grêmio Belini (Caixas do Sul) e também pelo clube aonde eu iniciei minha carreira de amador, o União de Armazém”. Não somente das equipe a qual Zé Carlos foi Campeão que ele mantém as lembranças, “dois times que também estão em meu coração, a equipe do Cruzeiro, da comunidade de Bom Jesus, Armazém e o Palmeirinhas, da comunidade de São José, também de Armazém”.

Vida atual

Hoje Zé Carlos é aposentado como funcionário público em Armazém e está casado com Zilca Perpétua Fileti de Sousa, há 42 anos. Pai de dois filhos, Eduardo e Eloisa. Avô de cinco netos, Carlos Eduardo, Marcos Vieira, Lucas, João Quilherme e Mateu. Zé Carlos é pai do cantor Dudu Fileti, que participou do The Voice Brasil e é renomado no Brasil.

Para os jovens, Zé deixa um recado, “uma das coisas que eu mais me preocupo com os jovens são as drogas. Gostaria de pedir para eles que pensem muito bem em suas escolhas, para depois não passarem por sofrimentos, assim como seus familiares. A vida é muito bela, Deus nos dá tudo, não precisamos de drogas para percebermos isto. Então, por favor, cuidado. Pratiquem esporte, porque ele nos ensina muito e salva vidas”.

Fica o agradecimento, “sou grato a Deus pela esposa e familiares que tenho, amo todos, inclusive meu genro e nora. Muito obrigado por fazerem parte de minha vida. Quero também agradecer o espaço cedido para contar um pouco de minha história no esporte, meu relato é em homenagem aos meus pais e irmãos. Também a todos os meus amigos desportistas que já se foram e aqueles que aqui permanecem, muito obrigado”.

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