Deivid Arent – Entre a cruz e a espada

Estamos entre a “cruz” da corrupção e a “espada” da violência e intolerância. Não poderia ser diferente, em um país extremamente corrupto e intolerante é compreensível que estejam no segundo turno das eleições presidenciais candidaturas que representam corrupção e intolerância.

Proliferar o ódio parece estar mais na moda do que nunca. Associamos o ódio como um sinal de força, como algo positivo e voltado ao masculino. Já o ato de voltar atrás, pedir perdão, ouvir calado e trazer harmonia, é encarado como algo negativo e feminino. Não é por acaso que a eleição presidencial trouxe para a disputa figuras voltadas à polarização do ódio, com as campanhas todos contra todos, “nós” contra “eles”. Já aqueles candidatos que não entram na disputa para propor o ódio e preferem debater o Brasil, são rotulados como omissos e sumidos, logo não foram para o segundo turno. A política só me é conveniente quando o meu candidato está no poder. O mesmo acontece com os institutos que promovem as pesquisas de intenções de votos, são corruptos quando os números não favorecem o meu candidato, e honestos quando apontam algo a favor.

Será que eleitores contrários e favoráveis a Bolsonaro são realmente diferentes? Percebo muitas semelhanças entre esses dois polos. Eleitores de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se dizem tão diferentes, que acabam se parecendo. Campeões de ódio, fake news e de intolerância. Poderíamos chamá-los de “Dilma-Temer” ou “irmãos siameses”, como preferirem. Hoje, o homem que é considerado o salvador da pátria e o novo pai do povo, não quer participar dos debates, pois não acha conveniente debater com um “poste” ou “fantoche de presidiário”, segundo o mesmo. Seria engraçado se não fosse trágico, pois esta atitude recebe o apoio dos eleitores de Bolsonaro, que sofrem de amnésia e esquecem que o “odiado” ex-presidente Lula, considerado o “inimigo do povo” também não participou dos debates nas eleições presidenciais de 2006. Será que Bolsonaro e Lula são diferentes?
“Nós” somos éticos, “eles” são corruptos. “Nós” utilizamos a faixa de pedestres, “eles” passam longe da mesma. “Nós” queremos o melhor para a empresa onde trabalhamos, “eles” querem apenas receber o salário no início do mês. “Nós” trabalhamos por um Brasil disciplinado e empreendedor, “eles” querem só os benefícios do governo numa vida fácil. “Nós” respeitamos todas as sinalizações de trânsito, “eles” desrespeitam o sinal vermelho. “Nós” sustentamos o Brasil, “eles” apenas se aproveitam. Qual o grande problema nacional? “Eles” não entendem que “nós” estejamos corretos, e que somos livres de defeitos.

Em 1936 Sérgio Buarque de Holanda usou a expressão “homem cordial” para definir a população brasileira, e até hoje o mesmo é crucificado pela frase. No entanto, Sérgio Buarque se referia ao cordial, não como se os brasileiros fossem dóceis, mas sim, como se nós agíssemos pelo coração, de forma impulsiva.

Nunca percebemos o ódio que está em nós, mas temos uma profunda habilidade de percebê-lo no outro. Temos resistência em reconhecer que o ódio é onipresente e universal, ninguém nega que ele exista desde que não esteja no eu, na minha casa ou cidade.

O ódio é sempre visto de forma externa, parece que vivemos em um paraíso, livres de qualquer resquício de ódio. Temos apenas uma certeza: o único inocente sou eu que escrevo e você que me lê. Todos os outros são culpados. Convivemos diariamente com a omissão da responsabilidade no ódio e na violência do nosso cotidiano. Ninguém se inclui no problema, pois o ódio é um lugar “quentinho”. É lá que nos escondemos. #PartiuPlebiscito você prefere a “cruz” ou a “espada”? Eu prefiro o injusto rótulo de omisso.

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