A cultura não merece censura! – Deivid Arent

As últimas semanas foram de intensa discussão nos veículos de comunicação e principalmente nas redes sociais, após uma menina, que estava acompanhada da sua mãe, ser filmada tocando no pé do artista fluminense Wagner Schwartz que se apresentou nu. A exposição acabou virando caso de polícia e a repercussão negativa provocou até agressões físicas. Os manifestantes contrários alegaram “erotização infantil” e afirmam que a criança se “sentiu constrangida”. Segundo o G1, o MAM (Museu de arte moderna) informou que a sala estava “devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística”. O museu também afirmou que “o trabalho não tem conteúdo erótico e trata-se de uma leitura interpretativa da obra Bicho, de Lygia Clark”.

Enquanto a população e a mídia discutem se a exposição do artista nu é cultura ou não, uma criança de 13 anos foi encontrada na mesma cela que um preso condenado a 18 anos por estupro, o responsável por deixar a criança no local foi o próprio pai do jovem, que também já tem passagens pela polícia por históricos com envolvimento em crimes do tipo, e certamente estava utilizando o filho como “moeda de troca”. O caso foi descoberto no dia (1) no município de Altos no estado do Piauí. Por incrível que pareça, esse pai que colocou o filho dentro de uma cela com um acusado de estupro foi menos criticado que a mãe que levou a filha ao museu.

Todos esses fatores colocam o segundo caso como protagonista de qualquer discussão sobre pedofilia e exploração sexual infantil, porém esses fatores não foram o suficiente para ganhar força na mídia e nas redes sociais. O que se quer, é desviar o foco, atacando a cultura e deixando em segundo plano os assuntos que deveriam ser do interesse social. Os responsáveis por esses ataques, na maioria das vezes são políticos e eleitores da estrema direita, que resolvem fazer do acontecido um palanque para propaganda eleitoral antecipada, esses radicais que certamente nunca visitaram um museu ou exposição e provavelmente jamais leram um livro descente, insistem em dizer que querem preservar a família brasileira. Sendo assim eu pergunto: preservar qual família? Preservar o que? Quais valores? O preconceito? A intolerância? O radicalismo? O ódio? A censura? Sim, falta cultura!

A liberdade de expressão é um direito do cidadão, quando liquidamos essa liberdade, matamos a nós mesmos. O nu faz parte da história, sendo assim não podemos impor as pessoas sobre o que elas devem ver ou não, isso é uma escolha pessoal, ninguém que esteve no museu foi forçado a estar no local. Existe uma grande diferença sobre o que é artístico e o que é erótico. A arte tem que se manter livre!

Somos uma sociedade extremamente preconceituosa e intolerante, encaramos o preconceito como um problema dos outros e não um problema nosso! Enquanto não mudarmos esse pensamento, continuaremos debatendo sobre assuntos que colocam nossa liberdade em risco.

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