A falsa polarização entre Lula e Bolsonaro – Deivid Arent

“Esquerda ou direita? Independentemente da direção que iremos seguir, faço questão de destacar que a corrupção é ambidestra, pois não é exclusividade da esquerda ou da direita.”

Historicamente nós brasileiros nos acostumamos a tomar decisões em meio a apenas duas opções: direita ou esquerda, azul ou vermelho, PSDB ou PT.

Hoje estamos lidando com a tentativa de criar uma nova polarização, que surgiu através da Internet e chegou à grande imprensa. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) são os personagens preferidos da campanha do ódio, que vem sendo praticada pelos usuários das mídias sociais, que escondidos atrás do computador ou celular, fazem o uso das mentiras e ataques contra aqueles que eventualmente pensam de maneira diferente.

Estamos impossibilitados de defendermos uma terceira via, caso o seu ponto de vista seja diferente do pensamento do candidato da direita ou esquerda, automaticamente a sua opinião é considerada inválida, pois se sua opinião não está debaixo dos guarda-chuvas de Bolsonaro e Lula, é como se não tivéssemos posição.

É uma farsa colocar Lula e Bolsonaro como as duas únicas vias para a eleição presidencial de 2018. Mediante a Lei da ficha limpa, Lula certamente não irá participar do processo eleitoral deste ano, já que foi condenado em segunda instância no caso tríplex de Guarujá (SP), e deverá ter a sua prisão decretada, pois na última quarta-feira (04) o recurso do habeas corpus do ex-presidente foi negado pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Além do caso tríplex, Lula é réu em outros seis processos. Já no outro lado da suposta polarização, temos Jair Bolsonaro, que se apresenta como pré-candidato à presidência pela primeira vez, mas terá muita dificuldade de chegar ao segundo turno. O pré-candidato conta com uma pequena estrutura partidária, comparado aos principais adversários, e certamente pagará caro pelo fato de suas propostas não terem sustentação na democracia. Assim como Lula, Bolsonaro representa um profundo retrocesso para o país.

Embora os dois pré-candidatos estejam nas duas primeiras posições nas pesquisas de intenção de votos para a presidência, não é possível visualizar os dois pré-candidatos no segundo turno, já que em comparação com os principais postulantes ao cargo de presidente, os dois contam com as maiores taxas de rejeição perante o eleitor. Vale lembrar que o número de indecisos nas principais pesquisas relacionadas ao tema, é superior à 30%, sendo que esses eleitores tendem a não seguir o caminho da suposta polarização, pois os apoiadores de Lula e Bolsonaro já estão colocados, e não fazem questão de esconder, basta acessar as redes sociais para automaticamente entrarmos na onda da terceira guerra mundial. Está cada vez mais claro que Lula precisa do Bolsonaro, assim como o Bolsonaro necessita de Lula, para que seja possível alavancar a campanha do ódio, caso um dos dois não possa participar do processo eleitoral, automaticamente o outro perde força.

A polarização é um mal para a política, o resultado da última eleição para presidente deixa claro a necessidade de mudarmos a forma de fazer política. Dilma e Aécio foram colocados como figuras centrais do processo eleitoral, e hoje passado quatro anos, podemos perceber os efeitos da polarização. O segundo turno das eleições de 2014, não foram disputados por Dilma e Aécio, mas sim, pelos marqueteiros das respectivas campanhas, que hoje estão presos, mas deixaram sérios rastros de destruição. As eleições de 2014 foram vendidas pelos protagonistas da campanha da mentira, juntamente com as grandes estruturas partidárias e o valioso tempo de televisão e rádio. Esses foram os fatores que decidiram o resultado das urnas, os eleitores não votaram em Dilma ou Aécio, mas sim nos marqueteiros e nos demais fatores já citados. Muitas vezes me pergunto! Somos vítimas ou cúmplices?
Para evitarmos o sentimento de déjà vu (já visto), é preciso buscarmos a conscientização política, para entendermos que o Brasil é maior do que qualquer candidato ou partido político. A disseminação da campanha, nós contra eles, faz com que deixamos o projeto de país em segundo plano, para colocar em prática o projeto de poder, na iminente tentativa de encontrar o salvador da pátria.

A Internet não criou, mas sim, revelou uma parcela alienada da sociedade. Os mesmos que antes não tinha coragem de se manifestar, talvez por acreditar estar sozinhos, hoje utilizam as redes como o meio de transferir as frustrações do seu cotidiano, e talvez inconscientemente passam a contribuir com a disseminação do ódio. O filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Umberto é crítico do papel das novas tecnologias no processo de disseminação de informação. O filósofo ainda concluiu que os ‘idiotas’ têm o mesmo espaço de Prêmios Nobel, a TV já havia colocado o “idiota da aldeia” em um patamar no qual ele se sentia superior. “O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Por fim, “não sabemos ao certo quem será o novo presidente do Brasil, porém analisando o resultado das últimas eleições, logo podemos concluir que será o pior possível”, é o que diz o bem humorado filósofo brasileiro Leandro Karnal. Acredito que esta não é uma frase otimista para encerrar uma coluna, mas o bom humor é sempre muito bem vindo para confrontar com o momento de ódio vivenciado pelos brasileiros.

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